1.

As criaturas da superfície andam como ratos em sua própria terra. Servos de suas próprias fraquezas, remoendo-se na própria sujeira como vermes devorando carne podre.

Nas terras geladas do norte, pelo menos não existe luz do sol — um prazer pequeno, mas ainda assim um dos poucos que este lugar deplorável pode oferecer.

Eles se assustam com um assassino solitário, como se tal coisa fosse extraordinária. Como se a morte tivesse escolhido um único rosto para usar. Como se não fosse uma velha e íntima amiga, sempre à espreita. Aqui, basta um corpo gelado e eles falam em “monstro”, “assassino”, “demônio”. Quanta ingenuidade.

Lá embaixo… lá embaixo era apenas mais um alimento para os ratos.

Em Menzoberranzan, a morte não é uma intrusa — é a anfitriã. Os becos estreitos carregam o cheiro metálico do sangue seco. As casas ecoam sussurros que não se ousa repetir. E quando um corpo cai… ninguém se pergunta “quem fez?”. Pergunta-se apenas “por quê não foi eu?”.

Trabalhos como este… como este que fizemos aqui na superfície… quase me fazem rir. Eles chamam de “assassino em série” como se nomear um tolo o tornasse um predador. Como se números fossem aquilo que define a morte. Eu já vi crianças aprenderem a matar antes de aprender a falar. Já vi matronas sacrificarem servos como quem descarta cinzas.

Quando por aldeias cobertas de neve, minha filha e eu, ouvindo histórias deste tal Sephek como se fosse algo terrível, excepcional. Eles tremem ao falar seu nome. Eles não compreenderiam o absurdo de comparar esse homem a qualquer lâmina de verdade.

A morte não muda. Somente a ignorância muda — e aqui em cima ela é abundante.

Seguiremos para BomHidromel. Resolver problemas. Ou eliminar obstáculos — como sempre fizemos. A superfície tenta fingir que existe diferença entre viver e sobreviver… mas no fim, tudo se resume ao mesmo: quem é forte o suficiente para empunhar a lâmina, e quem não é.

E eu não costumo deixar a lâmina cair.

2.

"O sangue derramado aos seus pés cumprirá a vontade dos Senhores Absolutos."

Lembro-me de quando ouvi estas palavras pela primeira vez.

Há tanto tempo... Quando minhas mãos ainda eram pequenas demais para empunhar uma lâmina digna, quando meus dedos ainda tremiam. Eu as escutei, sentada aos pés daquela cadeira de madeira que rangia quando balançava, enquanto aquela velha enlouquecida sussurrava verdades ousadas. Verdades que se aninharam em mim como um veneno lento, paciente.

As obrigações como matrona de minha casa se ergueram diante de mim como amarras de seda, mas nunca me esqueci do dia em que compreendi meu verdadeiro propósito. Como uma ferida aberta, que eu permiti rasgar-se cada vez mais.

Na noite em que sonhei com aquele trono de ossos gastos e carne apodrecida, soube que o momento havia chego. Não haveria mais espera, não haveria mais dúvidas...

Não existiria mais conforto. Apenas poder.

Minha oferta foi meu magnum opus. Minha obra-prima. Nada jamais se igualará a ela, temo eu... Quando provei o fim em seus lábios trêmulos. Senti seu último suspiro escapar enquanto minha adaga encontrava seu caminho, lenta e íntima... Seu sangue manchou minhas vestes, escorreu entre meus dedos.

E eu soube, finalmente, que estava completa.

Depois... Apenas silêncio. E mesmo assim, soube que seria reconhecida, pois atos verdadeiros ecoam além de testemunhas.

Parece que nem mesmo a Senhora do Inverno Eterno é capaz de impedir que as garras dos Três Mortos rasguem sua terra e a marque com sangue.

Depois de tanto tempo na superfície, aprendi a apreciar certas ironias... O modo como o vermelho se destaca contra o branco da neve. Tão vívido. Tão honesto.

Uma pena que congele tão rápido.

3.

Fracasso. Eu sou um fracasso.

Minha avó dizia, em seus delírios. Um fracasso como drow. Uma vergonha para minha casa. Ela cuspia essas palavras entre risos frios, com suas mãos apertando meus pulsos até deixar marcas.

Mesmo quando sua mente velha já estava fragmentada, seus olhos ainda me atravessavam. Nunca minhas irmãs, minha filha – sempre eu.

Ela enxergava. Via as sombras que se aninhavam sob meus ombros, ouvia os sussurros que chegavam às minhas orelhas.

Ela sabia. Sempre soube, não é? Que a fome e a crueldade que apodreciam em mim não vieram dela. Vieram deles.

Bhaal. Bane. Myrkul.

Foi ela quem primeiro acusou esses nomes. Foi ela quem me disse que eu estava arruinada. E ela estava certa.

Lolth exige submissão. As matriarcas existem obediência. Mas os Três Mortos... Eles existem dedicação. Verdade. Sangue.

Eles não gritam. Não imploram. Apenas esperam.

E eu fui atrás deles. De novo e de novo e de novo, a cada vez que o sangue escorria pelas minhas mãos e eu via o medo nos olhos dos outros, era a única coisa que um dia já foi certa sobre mim.

Mas eu sou um fracasso, como dito pelas palavras dela. Como dito pelas palavras dele. Um assassino que não mata, lento demais, fraco demais, deveria mesmo estar morto.

O fracasso é mais cruel do que qualquer castigo.

Mas um dia, eu banharei esse infinito branco com sangue, e eles saberão que a fome dentro de mim não é apenas um eco do fracasso ou uma marca colocada por engano em uma criatura pequena demais para carregá-la.

Um dia, serei a mão da verdade absoluta sobre este mundo. Tudo apodrece. Tudo se curva. E tudo grita na ponta de uma lâmina.

4.

"Darei meu primeiro filho a você."

Nil'ress parecia cansada, quando me disse. Agarrada ao seu terceiro filho, quieto em seus braços como se soubesse que seria o último permitido a viver. Como se soubesse que era melhor não fazer muito barulho, para não incomodar nossa avó.

"Quero que ele seja seu," ela me disse. Questionei, naquele momento, como ela poderia ser tão ingênua. Como ela, que um dia fora a primogênita e a preferida de nossa mãe, poderia ser tão inocente.

Mas ela não deu importância. Ou talvez, mesmo em seu estado repugnante de depressão e ruína, mesmo com suas entranhas podres e seu ventre manchado, ela decidiu apostar nas sombras das quais nossa avó falava, quando delirava sobre mim.

Decidiu que deixar seu primeiro filho em minhas mãos era melhor do que entregá-lo a outra alguém – uma de nossas tias, talvez, que o veriam como mais um enfeite nos corredores de suas casas.

Nossa avó já me perguntava sobre consortes. Sobre filhas, sobre atender às minhas expectativas bem como minha irmã mais velha – não Nil'ress, não a primogênita que apenas pariu filhos, mas Llerith, com suas filhas gêmeas, que abençoou a linhagem de nossa casa.

À minha irmã, nada disse naquele momento. Ela entendeu, mesmo assim, de alguma forma. Sua desgraça a deixou perceptiva, afinal.

"Lorynlith será seu," ela insistiu, com a finalidade de alguém que já decidiu aceitar um destino inevitável. "E então, nada de ruim acontecerá com ele. Eu sei disso, Rhae'niss."

"Você é uma tola," eu disse, e deveria ter soado mais fria, mas era difícil quando minha irmã já parecia tão arruinada.

E ela riu. Riu, como se fora uma piada. Talvez o puerpério a tenha deixado insana. Talvez isso era o que acontecia – talvez, no desespero de proteger seu primogênito, minha irmã ficou tão louca que estava capaz de fazer um acordo com o diabo.

"Dentre todas as coisas terríveis que podem acontecer com meu filho," ela disse. "Eu prefiro que seja apenas você."

A cada dia que passa, Kae'lith se parece mais com seu pai. Nasceu com os mesmos olhos, o mesmo nariz. O mesmo jeito de entortar a cabeça quando espera para dizer algo. A mesma tendência de fazer coisas boas escondida, a ingenuidade de achar que as pessoas podem ser mais do que elas nasceram para ser.

Mas agora, acho que entendo minha irmã – mais do que naquela época.

Dentre todas as coisas terríveis que podem acontecer com a minha filha. Espero que seja apenas eu.

5.

O acordo foi selado com pressa por parte de minha irmã. Um dia, ela estava levando seu terceiro filho de volta à sua casa na esperança de escondê-lo longe dos olhos e ouvidos de nossa avó - e no dia seguinte, enviava Loryn aos meus aposentos, carregando uma carta e nada mais. O garoto havia crescido, desde a última vez que o vi. Lembrei-me de tê-lo segurado nos braços quando ele nasceu, e de vê-lo quando criança nos raros momentos em que minha irmã saia de sua toca. Não parecia apavorado, mas era como um cordeiro oferecido em sacrifício. Dócil, com aqueles olhos escuros como pedras de obsidiana. E quando eu o mandei entrar e fechar a porta, ele o fez. Ordenei que se sentasse na poltrona ao lado do fogo, e ele também o fez. Não disse nada, apenas seguiu. “Sua mãe insistiu que eu o aceitasse como meu consorte,” eu disse a ele, e como resposta ele apenas concordou com a cabeça. “Eu neguei, mas ela é ingênua e acredita que você estará mais seguro comigo que com uma de nossas tias.” Loryn não pareceu se ofender pelas palavras. Apenas olhou para mim e, quando finalmente falou algo, era em um tom quieto mas não trêmulo. “Eu farei o que deve ser feito, como deve ser,” ele disse. Isso me irritou mais que o seu maldito silêncio. “Não seja tolo. Você não é mais o estopim da ruína da minha irmã. E se algum dia falar algo do tipo novamente, cortarei sua língua.” Isso o assustou um pouco, mas ele me olhou com mais confusão que medo. Ele estava sendo um bom consorte, não? Como dita as tradições, estava sendo bom e dócil e seguindo ordens. Mas quando eu tirei minha adaga de sua bainha, talvez ele realmente pensou que cortaria sua língua. Por um momento, parecia mais assustado que dócil, mas como um bom cordeiro, permaneceu imóvel. Puxei sua mão, talvez com mais força que deveria - como minha avó fazia comigo, quando queria deixar marcas. Mas ao invés de cortar seus dedos ou sua garganta como punição pela sua fraqueza, apenas coloquei a adaga em sua mão. E ele me olhou como se eu fosse maluca. “Te darei um motivo para se sentir assustado se não tirar essa expressão da sua cara,” eu disse. “Guarde. É sua agora.” Ele tentou insistir que não podia aceitar, que não era certo, mas eu o interrompi antes que terminasse. “Não me dê lições sobre os costumes de nosso povo, eu os conheço desde antes de você nascer. E pelas nossas tradições, você agora é meu consorte. Minha responsabilidade, minha propriedade, mas eu não terei nada que seja fraco e indefeso em meus aposentos. A partir de agora, você deve se portar como alguém intocável.” Loryn olhava entre eu e a adaga, como se aquilo fosse uma blasfêmia. Ou uma bênção, como se aquela adaga fosse algo sagrado e não apenas mais uma lâmina que logo encontraria seu lugar nas entranhas de alguém. “Não sei empunhá-la...” “Aprenderá.” “Não sei o que fazer com isso.” “Aprenderá. E aprenderá a olhar nos olhos de quem falar com você, não se acovardar como os consortes de minhas tias e irmãs e todos os outros que rastejam por aí, e aprenderá a não seguir as palavras de ninguém que não seja eu. E se alguém ousar colocar as mãos em você…” “Você se lembrará a quem pertence.” É curioso, tentar ensinar um cordeiro a morder como um predador. Vai contra sua natureza, afinal. O Loryn nunca usou aquela adaga. Nunca a empunhou - ele era bom demais para isso. Acreditava no bem das pessoas, e mesmo quando elas o feriam, ele vinha à mim. Ele sempre foi uma criatura ingênua. Mas aquela adaga esteve sempre consigo, até mesmo na noite de sua morte. Até encontrar-se contra sua garganta, e banhar seu peito com seu próprio sangue. E depois, retornou à minha bainha mais uma vez. Bem como deve ser.

6.

Celebrações em Menzoberranzan não são incomuns. Eventos chiques, organizados por famílias influentes - os preparativos eram, ao mesmo tempo, uma questão de beleza, de poder, e de intriga politica. Matronas trocando comentários falsos, espalhando boatos, criando e quebrando alianças com o mesmo exato sorriso bem treinado no rosto. Bom vinho, que geralmente era difícil dizer se estava envenenado ou não. Na maioria das vezes, alguém acabava com uma adaga no peito ou agonizando no chão dos grandes salões. Os Teinithra sempre organizaram grandes festas. Um capricho de minhas tias, que pareciam ter um enorme apreço por intrigas mesquinhas e por colecionar inimigas como troféus, rindo entre si como hienas em um banquete. Metade da cidade estaria presente - e a outra metade estaria espiando. Loryn estava sentado diante de um espelho de obsidiana, vestindo roupas escuras reservadas apenas para ocasiões especiais, enquanto eu penteava seus cabelos. Estavam mais longos que os meus a esse ponto - ele escolheu deixá-los crescer, e eu permiti. Combinava com ele, de certa forma, uma moldura de fios brancos para suas feições ainda gentis demais para essa cidade. Ele havia mudado, desde que chegou aos meus aposentos pela primeira vez. De formas sutis, que eu me pegava estudando quando estávamos juntos - no silêncio, ele me olhava nos olhos, postura não mais temerosa mas confortável. Me chamava pelo meu nome, em um tom... Diferente, que me incomodava. E quando eu cerrava meus olhos, ele sorria e olhava de volta para seus livros. Não era tradição, definitivamente, mas minhas mãos lentamente prendiam seus cabelos com fios de prata e pedras da lua. Falando com ele, como fazia antes destas festas, mais por insistência minha que necessitava. "Não olhe para o chão," eu disse. "Eu sei." "Nem pense em falar com minhas tias. Elas são traiçoeiras e não merecem sua atenção." "Eu sei." "E se minha avó ousar dirigir a palavra a você –" Ele me respondeu antes mesmo que eu pudesse terminar a frase. "Falarei com respeito e sem pressa," as palavras vieram fácil. E quando minhas mãos pausaram e eu olhei para ele através do espelho, ele sorriu e continuou sem mesmo que eu exigisse mais. "Sem parecer fraco." Eu não elogiei, mesmo que aquelas palavras tenham me agradado. Apenas concordei com a cabeça e continuei o que estava fazendo. A maioria das matriarcas não se davam ai trabalho de pentear os cabelos de seus consortes, de enfeitá-los com pedras e fios de prata. Exigiam que eles o fizessem sozinhos, afinal, era papel deles impressionar suas senhoras. Loryn não questionou, quando eu insisti em fazer isso pela primeira vez. Ele sabia que, se ousasse perguntar, eu o diria que cortaria sua língua para que não fizesse mais questionamentos estúpidos. Apenas aceitava. Em silêncio, parecendo estranhamente contente. Um silêncio que me incomodava, pois deveria me incomodar. "Ela perguntou de novo, ontem," eu disse, por fim, palavras que vieram sem que eu quisesse realmente. E Loryn não precisou perguntar quem era. Ele sabia, agora, porque... Por algum motivo, eu dizia coisas para ele. No silencio, as palavras vinham antes que eu pensasse nelas, e aqueles olhos escuros pareciam ver mais do que deveriam. "Perguntou sobre filhas," ele adicionou ao que eu disse, não em questionamento, mas como uma afirmação certa. Minha avó raramente falava de outra coisa, desde que aceitei Loryn como meu consorte. Prendi o ultimo fio de prata aos seus cabelos, e dei um passo atrás para observar. Nunca tive muitas frescuras com minha própria aparência, mas queria garantir que nada nele estivesse fora do lugar. "Eu já me cansei das perguntas dela." Normalmente, eu não diria nada. Ultimamente? Passei a dizer. De novo e de novo, mais palavras que deveria. E ele? Ele ouvia. Olhava para mim, e ouvia. E eu o odiava por isso. Pelas pausas antes de falar, pelo seu cuidado com cada palavra como se elas importassem. "Você sabe que ela não pode mais te machucar," ele disse, naquele tom mais quieto, toda vez que falava comigo como alguém fala com um animal encurralado. "E ela sabe que você nunca será o que ele deseja." Talvez ele tenha enlouquecido. Palavras absurdas de um garoto que não sabia o que dizia, porque eu era exatamente o que ela exigia que eu fosse desde que nasci. Ele se levantou devagar, se virou para mim. Havia algo diferente nele agora, uma calma que não existia quando ele chegou. Algo estranho e silencioso, algo que me incomodava e que eu queria odiar. Deveria odiar. "As coisas seriam diferentes," ele disse, como se soubesse a verdade apenas por olhar para mim. "Se você fosse o que ela quer." Deveria ter dito algo cruel. Batido nele, pois era assim que as pessoas aprendiam, como minha avó fez com suas filhas e suas netas e comigo, mais que as outras. Medo era a única ferramenta capaz de causar mudanças. Mas, mesmo que eu quisesse... Só consegui olhar para o outro lado, evitar aqueles olhos escuros, e não comentar sobre aquelas palavras. “Ela vai perguntar de novo. Sobre herdeiras, sobre a continuidade da casa,” eu disse. “Fará comentários. Insinuará que somos uma vergonha para nossa casa.” E Loryn só andou até que estivesse à minha frente novamente, até que eu tivesse que olhar para ele e que ele pudesse sorrir para mim. “Eu ficarei ao seu lado,” ele respondeu, simples assim. Às vezes, me esquecia que fui eu quem o disse para deixar de ser um cordeiro. Mesmo que aquela adaga nunca tenha saído de sua bainha, mesmo que ele nunca nem tentou empunhá-la... Ele cumpriu sua palavra. E esteve ao meu lado. Até mesmo naquela noite, nos salões da casa de minhas tias, quando eu empurrei minha irmã mais nova contra a parede. No meio daquela celebração vazia e idiota, quando derramei o sangue dela naquele tapete caro. Ele não fugiu. Ingênuo e estúpido, Loryn não fugiu, e ele olhou para mim e eu queria odiá-lo. E percebi que nunca conseguiria.

7.

Não era meu plano matá-la.

Isso é o que digo a mim mesma, às vezes. Não por arrependimento, este é um luxo que não me foi dado, nem por culpa, mas porque a morte dela foi… Limpa demais. Rápida demais.

Minha irmã mais nova sempre foi… barulhenta. Não no sentido comum. Não gritava, não desafiava como minhas tias faziam, não cuspia veneno como minha avó.

Ela era pior. Ela ria. Ria de coisas que não deveriam ser engraçadas. Ria de olhares tortos, de insultos velados, de jogos políticos que todos fingiam não ver. Ria como se estivesse acima daquilo tudo — como se Menzoberranzan fosse um palco e nós, tolos, fôssemos entretenimento.

Era o tipo de criatura que testa limites sem parecer que está testando. Encostava demais. Falava demais. Olhava por tempo demais.

E Loryn… Loryn não entendia. Ou talvez entendesse — e escolhesse não reagir.

Eu os observei naquela noite.

Mais do que deveria. Mais do que era necessário.

Seus dedos tocando o braço dele como se fosse algo casual. Um comentário sussurrado perto demais de seu ouvido. Um riso leve quando ele não respondia, como se aquilo fosse parte de alguma brincadeira privada que só ela conhecia.

E ele… apenas permanecia. Educado. Quieto. Como sempre.

Os salões estavam cheios, como sempre. Música, vinho, vozes falsas ecoando entre as colunas. O tipo de noite em que alguém sempre acaba morto — mas raramente alguém importante.

E ela sorriu ao me ver. Me chamou de irmã, e riu quando eu disse que ela deveria ter mais cuidado. Claro que riu.

Eu a empurrei contra a parede antes mesmo de perceber que havia me movido. O impacto ecoou mais alto do que deveria.

Ela não parecia assustada. Não o suficiente. Nem quando eu disse que cortaria sua mão se ela encostasse no que não era seu, ela apenas me perguntou desde quando eu passei a me importar.

Desde quando.

Desde quando.

Como se minha mão se movesse sem meu controle, tirei a adaga de Loryn de sua bainha, e nem vi onde ela entrou.

Aquela lâmina estava mais afiada do que imaginei...

O sangue começou a escorrer do estômago dela, manchando o tecido caro, o chão, minhas mãos. E o salão ficou em silêncio.

Ela tentou dizer algo. Talvez meu nome, talvez ela tenha tentado rir, mas a adaga subiu contra seu diafragma e o ar escapou de seus pulmões tal qual suas entranhas.

Nunca saberei.

A lâmina saiu tão facilmente quanto entrou, ela se tornou mais um cadáver no chão do salão da nossa avó...

E, por um momento… Apenas um momento… Houve paz.

O mundo pareceu… Saciado. Satisfeito. Como se por um único instante, nada mais importasse além daquele prazer.

O sangue foi difícil de lavar. Das minhas roupas, e das roupas dele. Mas Loryn não pareceu enojado. Não desviou o olhar, nenhuma vez.

E eu percebi que não o odiava, afinal. Eu não o odiava.

E me perguntei, naquela noite, desde quando passei a me importar.